Cinco mil mulheres não vigiam gravidez

Perto de 5% das mulheres que vão ser mães não vão a consultas durante toda a gravidez ou parte dela. Com isso, aumentam o risco de morte ou de complicações do bebé.  Os hospitais alertam também para os  perigos para a saúde da materna.
“Não fui ao médico até aos cinco meses de gravidez porque não estava a acreditar que estava grávida”, conta Elisabete Jorge ao DN. Apesar de estar à espera do seu quinto filho, confiou na hemorragia mensal, semelhante a uma menstruação, e chegou ao médico muito tarde. Demasiado tarde para uma mãe hipertensa e com problemas cardíacos, o que a obrigou a ser acompanhada regularmente no Hospital Amadora-Sintra. Elisabete não é caso único. A sua história repete-se nas vidas das cerca de cinco mil mulheres que, anualmente, não vão às consultas do centro de saúde ou que o começam a fazer já com a gravidez adiantada.

A alta-comissária da Saúde, Maria do Céu Machado, e o presidente da Comissão Nacional de Saúde Materna e Neonatal, Jorge Branco, calculam que 5% das gravidezes em Portugal não são vigiadas, “total ou parcialmente”. Uma taxa semelhante à de outros países europeus. Os números “são hoje muito melhores, mas continua a haver muitos casos, que implicam complicações para a mãe, para o filho e saem muito mais caros ao Estado do que o acompanhamento da gravidez”, frisa Jorge Branco.

As consequências de uma vigilância tardia ou nula podem ser muito graves, com a morte do próprio bebé. Maria do Céu Machado deu o exemplo da mortalidade perinatal (até aos 28 dias), que “duplicava nos casos em que não havia vigilância”, refere, citando um estudo do Hospital Amadora-Sintra. Mas há mais complicações.

Fernanda Matos, assistente graduada de ginecologia e obstetrícia do Hospital Fernando da Fonseca, diz que há doenças, como a diabetes, “que se não forem atenuadas ou regularizadas desde o início da gravidez, com medicação, podem afectar o crescimento do feto e até provocar a sua morte”. É o caso também da hipertensão, com mais risco de malformações e de redução do crescimento do feto. Se tiverem doenças infecciosas, como VIH, também as podem transmitir ao seu filho.

Parte dos partos prematuros, que em Portugal são 9% do total, estão também associados a gravidezes não vigiadas. “Filhos de mãe diabética, hipertensa, com infecção não tratada ou à espera de gémeos podem nascer prematuros e as cesarianas também aumentam quanto mais complicada é a gravidez”, diz Fernanda Matos.

Se Portugal tem orgulho na sua reduzida taxa de mortalidade neonatal – 2 por mil nados-vivos – há outros indicadores que podiam ser melhores, como as crianças com peso baixo à nascença (8%) ou a elevada taxa de cesarianas (35%).

Há muitas razões que levam as mulheres a não vigiar a gravidez (ver caixas). Só ao Amadora-Sintra chegam por ano 400 grávidas que não que não foram acompanhadas (10% do total). Uma taxa muitíssimo elevada porque uma boa percentagem das mulheres é imigrante. “As mulheres africanas, por exemplo, acham que a gravidez é um estado normal e acabam por ir à consulta já no terceiro trimestre. Só vão ao hospital se tiverem problemas”, diz Maria do Céu Machado.

A isto juntam-se as mães de grupos vulneráveis, em pobreza ou exclusão social e “as que têm medo de ter patologia ou infecção grave”.

Um dos objectivos do Plano Nacional de Saúde é apostar “nos cuidados de proximidade. Identificar e ir até aos grupos vulneráveis”.

in DN

 

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